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IA Gerativa na encruzilhada: das velhas certezas do Norte às novas possibilidades do Sul.

Foto do escritor: h.d.mabuseh.d.mabuse

acervo pessoal

Não estamos tratando da escolha entre diferentes modelos de IA - mas sim de decidir se seremos capazes de construir uma IA verdadeiramente plural e descolonizada.
Não estamos tratando da escolha entre diferentes modelos de IA - mas sim de decidir se seremos capazes de construir uma IA verdadeiramente plural e descolonizada.

O que lhe espera neste texto:


Uma análise crítica sobre como a inteligência artificial gerativa (IAG) reproduz padrões de colonialismo digital, baseado em:

  1. Exploração do Sul Global:

    • Extração de dados (como matéria-prima gratuita)

    • Extração de minerais (ex: cobalto no Congo)

    • Trabalho precário no treinamento de IA (ex: anotadores mal remunerados no Quênia ou Índia)

  2. Alternativas do Sul:

    • China (DeepSeek - IA eficiente e com dados locais)

    • Índia (Bhashini - IA em línguas marginalizadas)

    • África (Lelapa AI - IA colaborativa com comunidades)

  3. Chaves para uma IA justa:

    • Soberania tecnológica (evitar dependência do Norte)

    • Ética situada (integrar saberes locais, não apenas "soluções universais")

    • Modelos sustentáveis (menos consumo energético, menos extração)


Conclusão: A IA não é neutra. O Sul Global já está construindo alternativas, mas o desafio é evitar repetir as mesmas lógicas de dominação.


Para que serve esta análise?

  • Entender que a IA tem impactos geopolíticos (não é apenas "tecnologia")

  • Mostrar que outras IAs são possíveis (além do modelo do Vale do Silício)

  • Inspirar políticas públicas e desenvolvimento tecnológico na América Latina e outros países do Sul.




Em sua palestra "IA em uma Era Pós-Razão", Ben Vinson III, defendeu que a inteligência artificial deve ser "desenvolvida com sabedoria", tendo como mensagem central que o progresso tecnológico deve servir à humanidade. Citando o filósofo Cícero e sua ideia de que a vida boa está centrada na busca da virtude e da sabedoria, Vinson questionou se a IA poderia realmente ser usada para o bem da humanidade ou se, ao contrário, representaria uma ameaça à reflexão crítica e à agência humana.


Nessa sua exposição na _MIT Compton Lecture_ ele analisa o desenvolvimento da inteligência artificial gerativa (IAG) a partir de um enfoque histórico-crítico, destacando suas implicações sociopolíticas. Como reitor da Howard University, Vinson examina como a IAG pode reproduzir desigualdades estruturais caso seu desenvolvimento seja dissociado de uma análise histórica dos sistemas de conhecimento e poder. Sua abordagem situa a discussão no contexto das relações Norte-Sul, questionando a distribuição assimétrica de influência sobre o rumo tecnológico.


A "Idade da Razão" e Seus Paradoxos

Vinson problematiza o racionalismo ocidental dos séculos XVII e XVIII, período que, embora celebrasse a razão como força libertadora, restringiu esse conceito de liberdade a poucos. Tal exclusão não foi acidental: serviu para justificar atrocidades como a escravidão e o colonialismo, sob o argumento pseudocientífico de que certos grupos raciais eram "incapazes de racionalidade plena". Esse discurso colonial, por exemplo, trocou o questionamento inicial de uma alma nos povos colonizados, por um questionamento "científico" sobre a capacidade de raciocínio, determinada por critérios fictícios de ordem biológica e ambiental — uma lógica que ecoa, hoje, nos algoritmos que classificam e predestinam indivíduos. Ao reduzir seres humanos a categorias hierárquicas, esse pensamento não apenas legitimou a dominação, mas também naturalizou a desumanização de populações inteiras. E essa história vem desde o nascimento do método científico, precedido pela invenção de um conceito bastante peculiar de natureza.


Francis Bacon e o nascimento do conceito Moderno da Natureza

Na gênese dessa história está Francis Bacon (1561–1626), que além de filósofo e estadista inglês, também desempenhou o papel de procurador-geral e chanceler do rei, atuando como administrador da justiça. Como terratenente do monarca, sua função incluía a supervisão das práticas judiciais, o que envolvia a fiscalização de interrogatórios e torturas utilizadas para obter confissões. Essa parte de sua biografia teve mais influência do que se comenta sobre a sua versão do método experimental, do qual é frequentemente considerado um dos criadores. Em obras como Novum Organum (1620), Bacon defendeu uma nova abordagem para compreender e controlar a natureza. Entendendo que  "Conhecimento é poder" construía argumentos como o do objetivo da ciência para "conquistar a natureza" em benefício da humanidade. Sua visão estava enraizada na ideia de que a natureza era um recurso a ser dominado, subordinado à vontade humana.


A filosofia de Bacon marcou uma mudança significativa em relação às visões anteriores, mais relacionais, da natureza, como as encontradas nas cosmologias indígenas, orientais ou mesmo europeias do período medieval. Em vez de ver a natureza como um sistema vivo e interconectado, Bacon a enquadrou como um objeto passivo a ser dissecado, analisado e explorado. Essa visão mecanicista da natureza preparou o terreno para a Revolução Científica e o Iluminismo, que consolidaram ainda mais a ideia de domínio humano sobre o planeta.


A Noção Moderna de Natureza e seu Contexto Histórico

A noção moderna de natureza emergiu nos séculos XVI e XVII, um período marcado por profundas transformações sociais, econômicas e intelectuais. Essa época viu o surgimento do capitalismo, a expansão dos impérios coloniais europeus e a consolidação do Estado-nação. A fragmentação e a hierarquização das relações humano-não-humano não eram meras abstrações filosóficas, mas estavam profundamente entrelaçadas nesses processos históricos.


O modo de produção capitalista, que começou a se formar nesse período, dependia da extração e da mercantilização dos recursos naturais. A natureza foi reconceituada como um reservatório de matérias-primas destinadas a impulsionar o crescimento industrial e a expansão econômica. A visão de Bacon sobre "conquistar a natureza" alinhava-se perfeitamente com esse ethos capitalista, fornecendo uma justificação filosófica para a exploração sem-limites do mundo natural (que afinal era um recurso infinito, não era?).


Colonialismo e a Dominação do "Outro"

A noção moderna de natureza também estava profundamente conectada ao projeto colonial. As potências coloniais europeias viam as terras e os povos que encontravam como parte de uma natureza "selvagem" e "incivilizada" que precisava ser "domesticada" e "controlada". Os sistemas de conhecimento indígenas, que frequentemente enfatizavam a interconexão entre humanos e não-humanos, em uma óbvia constatação que somos parte da mesma natureza, eram descartados como primitivos ou supersticiosos. Tal visão hierárquica da natureza se estendia à desumanização dos povos colonizados, que frequentemente eram tratados como parte do mundo natural a ser dominado e explorado.


Com a chegada do método científico, inspirado em parte pelas ideias de Bacon, reforçou-se a separação entre humanos e natureza. Pensadores como René Descartes desenvolveram ainda mais esse dualismo, enquadrando a natureza como uma máquina governada por leis fixas. Essa visão mecanicista não apenas justificou a exploração da natureza, mas também facilitou o desenvolvimento de tecnologias que possibilitaram a expansão colonial, como ferramentas de navegação, armas de fogo, inovações agrícolas e técnicas de controle social.


Inteligência Artificial Gerativa: mais continuidade que ruptura

Vamos dar um grande salto até o boom da IAG em novembro de 2022, a Inteligência Artificial Gerativa (IAG) não surge em um vácuo, mas sim a partir de condições materiais e humanas profundamente enraizadas em relações de exploração global, baseadas em um modo de produção capitalista, que nasceu "gravado nos anais da humanidade, com traços de sangue e fogo¨.


Observamos então que a IAG tem como condições de possibilidade o desenvolvimento de hardwares cada vez mais potentes (dependentes para sua produção da exploração intensiva de minerais) e de trabalho humano intenso, tanto indiretamente — por meio de sua produção intelectual fartamente disponível online — quanto diretamente — por meio de trabalho humano mal remunerado e insalubre para o treinamento de IA.


Sobre a extração intensiva de minerais para hardware, tal processo que frequentemente ocorre no Sul Global sob condições ambientais e sociais precárias, gera impactos desproporcionais nas regiões onde ocorre, trazendo também um ciclo de produção e consumo do hardware que promove um dano ainda maior para o sul global, pois como apontam estudos, o lixo eletrônico resultante dessa cadeia produtiva é majoritariamente enviado para países em desenvolvimento, onde sua "reciclagem" expõe trabalhadores a substâncias tóxicas, completando um ciclo de extração, produção concentrada no Norte Global e descarte em uma cadeia de valor desigual.


Além da exploração material, a IA se alimenta de milhões de contribuições intelectuais online, que são transformadas em "matéria-prima gratuita" para treinar algoritmos. Mais grave ainda é o trabalho precarizado de anotação de dados, realizado por trabalhadores em condições muitas vezes insalubres, com baixos salários e sem proteção laboral - atividade essencial para o funcionamento dos sistemas de IA que depois são comercializados por empresas do Norte Global.


Essa dupla exploração, tanto dos recursos naturais quanto da força de trabalho, revela um mapa de assimetrias geopolíticas embutidas no desenvolvimento tecnológico contemporâneo.


Dessa forma o atual paradigma de IA está fundado em relações desiguais que reproduzem dinâmicas históricas de dominação. Enquanto os benefícios econômicos e o controle tecnológico permanecem concentrados no Norte Global, os custos humanos e ambientais recaem desproporcionalmente sobre o Sul. Reconhecer essas condições materiais é fundamental para qualquer projeto que busque uma IA verdadeiramente ética e justa, que supere a lógica extrativista e colonial ainda presente no coração da revolução digital. Esse parece ser um "ponto cego" do discurso de Vinson, ele não reconhece que a construção de alternativas exigirá não apenas mudanças técnicas ou mesmo éticas, mas sobretudo a transformação dessas relações estruturais de poder.


Entre Heidegger, Deleuze & Guattari e Álvaro Vieira Pinto: o problema da técnica

Embora sua crítica à IA gerativa toque nos riscos de uma racionalidade desumanizadora, a fala de Vinson não constitui uma rejeição da tecnologia, mas sim uma convocação ética à sua reinvenção. Nesse ponto, nos valemos de um pouco de história e do contraste entre os pensadores Martin Heidegger de um lado, e Gilles Deleuze, Félix Guattari e Álvaro Vieira Pinto de outro para compreender os caminhos possíveis.


Heidegger, importante pensador da técnica no ocidente, ao aborda-la como "enquadramento" (Gestell), alerta para o risco de redução do mundo a mero recurso. Para ele, a técnica moderna oculta outras formas de revelação do ser, aprisionando o pensamento em uma lógica utilitária. Deleuze e Guattari, em contraposição, veem na técnica e na máquina não apenas instrumentos de dominação, mas também possibilidades de criação, multiplicidade e fuga. O agenciamento (assemblage) é uma conexão de corpos heterogêneos, formando uma rede de forças por proximidade, simpatia ou simbiose. É a unidade mínima de produção de enunciados, operando simultaneamente como máquina de corpos e coletivo de enunciação . Essas duas dimensões são distintas, autônomas, mas inseparáveis, articulando-se por conjugação ou vizinhança. Sendo então um recorte de rede de relações, dessa forma parece fornecer uma ampla possibilidade de leituras e proposições a respeito da variabilidade de aspectos ou dimensões da realidade em suas relações, o que é conveniente para um uso da tecnologia que não se limita à reprodução de estruturas, mas que inventa novas formas de existir.


Álvaro Vieira Pinto oferece uma perspectiva ainda mais afirmativa. Ao desenvolver o conceito de "amanualidade", ele destaca o papel ativo dos indivíduos na criação tecnológica e nas formas de produção social. A tecnologia, para ele, é uma expressão do conhecimento humano inserido em contextos históricos concretos — não uma força autônoma ou alienante. Pinto propõe uma reflexão crítica, mas não tecnofóbica: ele denuncia tanto o fetichismo da tecnologia quanto sua rejeição total, defendendo um uso ético, situado e consciente. Sua crítica ao "deslumbramento tecnológico" ressoa como alerta contemporâneo à crença acrítica nos poderes milagrosos da IA.


Assim, a crítica de Vinson ecoa Heidegger ao denunciar os perigos de uma IA que repete o projeto colonial de racionalização total. Mas também deveria se alinhar com Deleuze e Vieira Pinto ao sugerir que, a tecnologia pode ser reapropriada como potência de resistência, como vetor de diferença e emancipação. Deleuze e Guattari, em especial, oferece uma chave para pensar a agência distribuída nos processos técnicos: em vez de perguntar se a IA tem agência, ele nos convida a observar o que emerge do agenciamento entre humanos e máquinas dentro de um "assemblage". Nessa interação, surgem afetos, novas possibilidades, novas formas de criação — e é esse campo de forças que nos interessa politicamente.


Norte Global, Sul Global: Dois Projetos de Futuro

A verdadeira contraposição que emerge na discussão sobre a inteligência artificial gerativa não é entre tecnologia e humanismo, mas entre dois modos históricos de produzir e imaginar o futuro. O modelo dominante, gestado no Norte Global, está profundamente enraizado em uma racionalidade moderna que separa sujeito e objeto, humano e natureza, conhecimento e poder. Essa racionalidade — que moldou a ciência moderna, o capitalismo e o colonialismo — opera a partir de uma lógica de dominação e acumulação, onde a técnica serve à eficiência, ao controle e à reprodução de desigualdades.


Por outro lado, o Sul Global — aqui entendido não apenas como localização geográfica, mas como posição geopolítica e epistêmica — oferece não uma negação da técnica, mas a possibilidade de um uso outro, ético e situado. Em muitas culturas e cosmovisões do Sul, a tecnologia é pensada em relação com a coletividade, com o território, com o tempo longo. A produção técnica não se dá a despeito da vida, mas em diálogo com ela. É nesse sentido que o Sul Global se apresenta não como vítima passiva do progresso alheio, mas como espaço de criação de alternativas. Uma IA forjada a partir dessas perspectivas poderia, por exemplo, incorporar valores de reciprocidade, cuidado, ancestralidade, *cacharreo* e justiça ambiental — desafiando frontalmente o modelo extrativista vigente.


A crítica de Vinson, portanto, não é apenas sobre os riscos da IA, mas sobre a possibilidade de refundá-la desde outros mundos possíveis. A esperança está em reconhecer que o Sul Global não precisa apenas resistir ao projeto técnico do Norte — ele pode criar outros, com outras finalidades, vocabulários e temporalidades. Aí reside a potência política mais profunda desse momento que vivemos: a de imaginar tecnologias que sirvam à vida, e não o contrário.


Sinais Materiais de uma Nova Técnica: Rumo a uma IA Descolonizada

As críticas aqui expostas ao modelo hegemônico de desenvolvimento de inteligência artificial - marcado por extrativismo de dados, consumo energético insustentável e centralização tecnopolítica - não se limitam ao campo teórico. Emergem do Sul Global iniciativas concretas que paulatinamente materializam alternativas viáveis, demonstrando na prática que outros modos de fazer são possíveis. Estes casos revelam não apenas mudanças técnicas, mas um profundo reposicionamento epistemológico e político na relação entre tecnologia e sociedade.


Na China, o projeto DeepSeek representa uma ruptura com o modelo dominante. Enquanto sistemas como GPT-4 demandam infraestruturas computacionais massivas - com consumo energético comparável ao de pequenas cidades - o DeepSeek foi concebido a partir de princípios radicalmente distintos. Sua arquitetura algorítmica otimizada reduz em até 70% os requisitos computacionais, enquanto seu processo de treinamento emprega datasets filtrados por relevância cultural e linguística. Tal abordagem não apenas minimiza impactos ambientais, mas evita a apropriação indiscriminada de conteúdo global característica do modelo extrativista predominante.


Esta não é uma iniciativa isolada. O ecossistema chinês de IA vem desenvolvendo caminhos alternativos que rejeitam a mera replicação dos modelos ocidentais. O Ernie Bot, da Baidu, por exemplo, foi especificamente projetado para compreender nuances do chinês clássico e contemporâneo, incorporando valores culturais como o conceito de hexie (harmonia social) em suas estruturas de resposta.


Essas iniciativas são sustentadas por um arcabouço regulatório inovador. A Regulação de IA Gerativa (2023), por exemplo, estabelece que pelo menos 30% dos dados utilizados no treinamento de modelos desenvolvidos no país devem ser de origem doméstica. Esta medida não apenas fortalece a soberania digital chinesa, mas cria barreiras contra a extração neocolonial de informação que caracteriza muitas plataformas ocidentais.


O fenômeno se repete em outras regiões do Sul Global. Na Índia, o projeto Bhashini desenvolve modelos de linguagem para 22 idiomas locais, priorizando falantes rurais historicamente excluídos dos ecossistemas digitais globais. No Quênia, a startup Lelapa AI cria ferramentas de processamento de línguas africanas através de processos colaborativos de fine-tuning que envolvem diretamente as comunidades linguísticas no desenvolvimento tecnológico.


Estes exemplos compartilham características fundamentais: (1) rejeição da lógica do crescimento ilimitado em favor da eficiência contextualizada; (2) integração de valores e conhecimentos locais nos processos de desenvolvimento técnico; e (3) estabelecimento de mecanismos de governança que garantam transparência e controle comunitário. O desafio que se coloca é de escala e sustentabilidade. Como garantir que estas experiências não permaneçam nichos isolados, mas possam constituir redes alternativas capazes de desafiar a hegemonia tecnológica atual? A resposta exigirá não apenas avanços técnicos, mas sobretudo novas formas de cooperação Sul-Sul, modelos de financiamento não extrativistas e novos e melhores arcabouços regulatórios.


Não estamos tratando da escolha entre diferentes modelos de IA - mas sim de decidir se seremos capazes de construir uma IA verdadeiramente plural e descolonizada. Os casos aqui citados demonstram que, longe de serem meras repetições da inovação do Norte Global, os países do Sul Global estão protagonizando algumas das experiências mais interessantes e promissoras de reinvenção tecnológica. Talvez o que está acontecendo hoje seja a prova concreta de que outros agenciamentos compostos por humanos e máquinas já estão em curso, nesse sentido, me colocando como um pesquisador sul americano, defendo que é hora de entender qual o papel dos nossos países nesse processo.

1 commentaire


Yellow
há 3 dias

É tarde para a regulamentação do uso de dados para treinamento das IAs?

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