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Quem são seus Marginais Heróis?

1423589066287Todo mundo, dentro do seu repertório, dentro de seu dia-a-dia tem sua coleção pessoal de marginais e heróis.  A partir do convite de Rico Lins, e inspirado no seu trabalho, foi concebido esse aplicativo que passa para as mãos de qualquer pessoa, munida de um Smartphone, a possibilidade de criar sua própria versão de cartaz e, durante o período de exposição, vê-la na parede da galeria Amparo 60.
No trabalho original de Rico Lins, o início da obra vem de  uma imagem digital sobreposta por uma “ruidosa” imagem analógica (com seus excessos/transparências de tintas/texturas) que deixam a imagem única. Na tradução para sua versão digital o processo ganha outra perspectiva: a imagem, que pode ser tirada por qualquer pessoa, na banalidade do ato de fotografar com o celular, tem sobreposta a tipografia criada analogicamente, e seu resultado (foto + tipos) recebem uma dose de ruído digital. O “Glitch”, “defeito” que torna, por sua vez, a imagem única.
Muito além do experimento com tecnologias, o trabalho discute um dos temas críticos na produção artística contemporânea: De quem é a autoria da imagem final? De Rico Lins por referenciar o trabalho inicial? Do artista convidado que propôs essa tradução para mídias digitais? Da equipe de engenheiros e designers que tiveram papel ativo nas decisões que imprimem a identidade às imagens? Ou da cidadã/cidadão que tirou a foto e escolheu entre as infinitas possibilidades de ruídos a combinação que faz da imagem uma obra única?
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Outra questão que levanta, não menos importante: quais as fronteiras que existem hoje entre arte e design? Engenharia (supostamente matemática e fria mas rica em simbologias) e expressão pessoal (por sua vez mediada por algoritmos e processos de desenvolvimento)? A própria participação do C.E.S.A.R, Instituto Privado de Inovação que tem um Laboratório dedicado às Interações Artísticas (o LIA) representa esse momento híbrido.
Mas pensamos nessas duas questões agora, quando o software é disponibilizado para o público, temos certeza que muitas outras questões podem e serão levantadas, a partir do seu uso por mais pessoas, com a certeza que trarão novos e mais ricos significados do que prevemos para esse nosso pequeno experimento.
Ensaios

Cultura Digital é Cultura Livre?

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Texto originalmente publicado no Overmundo, em 14/12/2006.

Quinta-feira, 06 de dezembro, em meio a uma tarde quente no bairro do Derby, no Recife, o Re:combo aportou na Fundação Joaquim Nabuco para a primeira rodada do debate sobre o tema: “Cultura Digital é Cultura Livre?”, como parte do evento “A cultura além do digital” (a segunda rodada se daria no dia seguinte, no Rio de Janeiro com a presença de Caio Mariano), depois do debate chegamos a conclusão que seria importante a documentação das idéias apresentadas, seja por cristalizarem nossas atenção nos últimos meses, seja como exercício para clarear temas debatidos no dia.

Então vamos lá, antes de mais nada é importante começarmos com a nossa resposta para o questionamento da mesa: acreditamos que a cultura digital é livre na medida em que todos nós (a sociedade) desejamos que ela seja. Mais ainda: acreditamos no potencial de reconstrução constante da cultura digital e no seu poder transformador da realidade social.

Para exemplificarmos o que acreditamos que seja o modelo ideal de atuação dentro da cultura digital para transformar a realidade lançamos mão de um recurso emprestado da ciência: a representação através de uma equação matemática dos elementos envolvidos nesse processo.

É importante notar que não existe aí um rigor cientifico (longe disso!), o uso da fórmula matemática é para tentar organizar os processos mentais dentro da nossa cabeça, e observar, de uma forma estruturada, o que acreditamos que seja o estado das coisas hoje.

a3 + µi = x
a3 significa acesso, autonomia e autoria.
Aqui o foco na nossa equação é o sujeito, o ser humano que é ator nessas transformações que estamos passando. O seu poder de ação é definifo pela combinação dos 3 tópicos citados:

acesso mais irrestrito possivel às redes, não só à Internet, mas às redes de convívio social, escola, familia, trabalho, esse cenário é construído com ferramentas que vão do acesso à Internet nos Pontos de Cultura até as Lan Houses de periferia de R$1,00 / hora, passando por ensino em tempo integral.

autonomia para produzir informação, arte, cultura. E através dessa autonomia, ter instrumentos para propagar mudanças na realidade, isso passa pelo ensino de linguagens de programação para que cada vez mais jovens possam recombinar a sua interface com o mundo digital e é tambm a autonomia de encontrar saídas fora dos padrões das indústrias de produção em massa. A autonomia para ocupar as ruas.

autoria : o re:combo entende que vivemos numa época em que as amarras da proteção do direito intelectual não atendem mais a uma primeira necessidade do homem, que é ter livre acesso às obras intelectuais.

Esse é um processo vivido atualmente pelos produtores de cultura que sofrem pelo tratamento desigual na remuneracão do seu trabalho, mas tambem é um processo conhecido pela cultura popular, que na sua essência tem trabalhado com conceitos dos mais diversos como a produção coletiva e colaborativa e o sampling. A compreensão da generosidade intelectual como instrumento para distribuicão do seu trabalho é um padrão seguido naturalmente pelos cantadores de feira com o orgulho de serem “sampleados” por outros cantadores mais famosos; Fazemos nossa a frase de Bakunin: “A Liberdade do outro amplia a minha ao infinito”.

µi significa micro-indústrias
Entendemos que a pirataria é um reflexo negativo da propriedade intelectual hoje em dia. Só isso.

Para falarmos sobre as micro-indústrias precisamos refletir sobre o seguinte ponto: para que de fato serve a indústria? Para atender a demandas de massa por determinados produtos de consumo. No momento em que não há demandas de massa por determinados produtos, podemos dizer que não há necessidade de manutenção e fortalecimento de uma indústria nos moldes atuais. Há sim o surgimento de pequenas indústrias, voltadas a atender as necessidades de pequenos nichos.

Pequenas indústrias atendendo a pequenos nichos de pessoas interessadas em determinadas áreas, agentes produzindo independentemente da “visualização” ou pretensão em fazer parte deste cenário.

A exemplo, podemos citar o surgimento de novos autores, que vêm se firmando no mercado única e exclusivamente graças à disponibilização de conteúdo via web. Este fenômeno, por exemplo, nos mostra que há proveitos a serem tirados desta nova ferramenta de distribuição e produção de conteúdo por uma série de pessoas que nunca estiveram ligadas à indústria ou se imaginaram autores algum dia. A exemplos, podemos citar os blogs, fotologs, flickers, net labels e afins produzidos por uma série de pessoas que jamais imaginaram que um dia produziriam algo protegível por direito de autor.

Do ponto de vista prático há uma série de novos autores que querem que suas obras fiquem disponíveis na internet – procurando inclusive meios legais para que o acesso seja legítimo e a cadeia de direitos autorais e conexos seja respeitada no âmbito da utilização da obra.

No entanto, enquanto discutimos as pessoas estão criando e re:criando novos modelos de negócio relacionados a esta realidade ou desenvolvendo novas culturas relacionadas ao meio digital que ultrapassam o objeto da discussão ora observada. A realidade é que, enquanto discutimos saídas legais ou modelos de negócio viáveis para solucionar estas questões, a dinâmica do fato social sobrepõe-se a qualquer definição que venhamos a criar ou aceitar como consenso.

a3 + µi = x
Por fim, qual o resultado dessa equação? Essa é uma pergunta que, para nossa felicidade, continua em aberto, uma lacuna para que nós mesmos possamos preencher com as nossas soluções e combinações emergentes.

Mas para encerrarmos o texto de um modo mais didático podemos dar dois exemplos atuais desse fenômeno:

a) o teconobrega do Pará: através da produção autônoma dos compositores do tecnobrega, em pequenos estúdios com a distribuição por conta da micro-indústria de CDs “pirata” (termo que não se aplica a esse genero, onde não há outra distribuição “oficial”), o artista lota apresentações na sua aparelhagem, realimentando o processo de criação

b) a cobertura jornalistica das ultimas manifestações populares em Oaxaca, México. Em meio a uma crise política de proporções inéditas desde o levante Zapatista em Chiapas não tinha se visto nada como em Oaxaca, e se dependessemos do mercado de notícias das grandes redes de comunicação continuariamos sem ver nada, mas os fotógrafos que tiveram acesso, autonomia e empenharam sua autoria num caráter jornalístico das manifestações utilizaram todos os meios possiveis, inclusive a micro-indústria da web 2.0 representada pelo Flickr, para mostrar para o mundo o que está acontecendo lá.
Através desse exercicio acreditamos que um agente (ou conjunto de agentes) com acesso, autonomia e poder de autoria, juntando-se A micro-indústrias emergentes pode modificar a realidade atual da forma que desejar. Na verdade é apenas o início da discussão sobre como podemos manter nossa cultura digital livre.

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Ibrahim Njoya. Inventor, poeta, criador da escrita Shumom e rei dos Bamum.

Descendente de uma longa dinastia de reis do povo Bamum, governou entre 1883 e 1931, foi inventor de instrumentos para beneficiamento agrícola, poeta, e a partir da necessidade de documentar os fatos sobre seu povo, montou um conselho de intelectuais com os quais desenvolveu, ainda aos 25 anos, o Shumom, sistema de escrita silábico, baseado em pictogramas e ideogramas tradicionais do povo Bamum. Criou escolas, para ensinar o Shumon e com ele escreveu a história do seu povo antes e durante seu reinado.

Usando de muita diplomacia, conseguiu conviver com a colonização alemã, aproveitando a política de não interferência nas colônias que se submetessem. A intervenção dos colonizadores alemães na recuperação da cabeça de seu pai (que estava de posse de uma tribo inimiga) selou a relação de colonização voluntária estratégica que durou até o fim da I Guerra Mundial. Com a derrota da alemanha, a região foi dividida entre a França e a Inglaterra.

Sob o domínio da França a escrita Shumon foi banida, boa parte da sua vasta biblioteca queimada e objetos que contavam a história do povo Bamum destruídos. A economia, anteriormente baseada na exportação da batata doce também entrou em declínio, Ibrahim Njoya foi então banido em 1930, vindo a falecer em 1933 no exílio na província de Yaoundé.

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O feminismo punk de Linder Sterling

Uma das capas mais marcantes do Punk de Manchester, de autoria do designer Malcom Garrett, foi ilustrada com uma desconcertante representação de corpo feminino com sorrisos no lugar dos mamilos e um ferro de passar-roupa no lugar da cabeça, foi com essa imagem, e ao som de “Orgasm Addict” do Buzzcocks, que tive o primeiro contato com as fotomontagens de Linder Sterling, artista, feminista e front leader punk do Ludus.
Na sua série “Pretty Woman”, à qual pertence a foto do disco do Buzzcocks, Linder faz um retrato da condição feminina na inglaterra dos anos 70, através da composição de fotos pornográficas de revistas baratas com eletrodomésticos de catálogos de compras dignos dos últimos impressos distribuídos nas Lojas Americanas. O estranhamento causado por essas imagens faz parte de uma tradição da fotomontagem que remonta o início do século XX com o trabalho de John Heartfield.
Além das capas de bandas (fez também a do primeiro disco do Magazine), fez parte ativa do fanzine “The Secret Public“, esteve a frente da banda pós-punk Ludus e continua ativa, tendo recentemente participado, com suas gravuras, da última colecão do Estilista Richard Nicoll.

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O polímata recifense Neilton Carvalho

Em meados da década de 1990, durante uma entrevista à revista Wired, Brian Eno, nomeado pelo repórter como o homem “Renascentista 2.0” por excelência, foi questionado: caso houvesse a possibilidade de viagem no tempo, para qual época gostaria de ir? contrariando a lógica eurocêntrica da revista, prontamente respondeu que o destino seria algum momento entre o início do século XI até meados do século XIII, direto para o apogeu intelectual do mundo Árabe.

A escolha não poderia ser mais acertada, “Existem analogias entre esse momento e hoje. Houve uma grande mudança de mentalidade. Antigos sistemas caíram, e, dolorosamente, novos nasceram. Houve uma redefinição de equilíbrio entre ciência e alquimia, filosofia e religião”, quase vinte anos se passaram dessa entrevista, e esse entendimento está ainda mais vivo.

Nesse momento em que vivemos, de mudanças e transformações sociais, econômicas e políticas, quando nações em desenvolvimento tomam um lugar de destaque nos jogos de poder do mundo, e exportam suas culturas, através de imigrações, produtos e mídias, com a potencialidade de alcance das redes e facilidades de mobilidade, quando novidades na ciência prometem uma mudança sem precedentes do nosso entendimento de mundo, é o momento de olharmos para nossa localidade, e encontrar no nosso quintal os exemplos de novas soluções para os sempre presentes novos problemas. Soluções que, dessa feita, não vem de uma distante europa em crise, mas do Alto Zé do Pinho.

Assim como os polímatas Averróis e Avicena, que produziram obras nas áreas das medicina, filosofia e poesia, Neilton Carvalho, não contente em ser guitarrista do Devotos, banda punk que é referência no mundo, ainda é artista plástico, com uma prolífera obra figurativa em pintura à óleo, e designer de produto como um dos empreendedores do Altovolts, autointitulado grupo de pesquisa em tecnologias mortas, laboratório/ateliê de onde saem alguns dos melhores amplificadores de guitarra valvulados do país.

E é nessa visão de Neilton, que intuitivamente nega uma antiga ideologia industrial e coloca a mesma energia em trabalhos de design que flertam com a arte, equipamentos de engenharia eletrônica que encontram com o artesanato e a música lapidada no encontro de todos esses domínios, que podemos ver bem vivo, no Nordeste do Brasil, um novo caminho que encontra na história o diálogo com a efervescência de um apogeu árabe, curiosamente sempre tão presente nas nossas ruas e nosso sertão!

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(Ladislav) Sutnar

Antes de Edward Tufte, antes de Richard Saul Wurman e antes de usarmos parênteses nos códigos de área nos números telefônicos, havia Ladislav Sutnar.

Ficou conhecido como o designer avant-garde que levou o construtivismo do início do século XX para o meio empresarial estadunidense. Sutnar nasceu na Tchecoslováquia (assim como Flüsser) e mudou para os Estados Unidos em 1939. Inicialmente veio para criar o pavilhão da Tchecoeslováquia na Feira Mundial de Nova Iorque, com o cancelamento do evento, Sutnar resolve permanecer no país. Em 1941 começa seu trabalho de produção de sentido na comunicação comercial através de recursos gráficos como tipografia e pontuação, no papel de diretor de arte da F.W. Dodge’s Sweet’s Catalog Service. Até 1960, e ao lado de Knud Lönberg-Holm, constrói sistemas gráficos e novas práticas de design que davam conta  do grande volume e densidade de informação, com uso de tipografia e uma palheta limitada de cores, com riqueza de ícones sintéticos e grafismos que marcaram seu trabalho, no que viria a se chamar, vários anos depois, de arquitetura da informação.

Figura de grande complexidade, Sutnar tinha ainda na sua obra projetos de marionetes (tradicionais no seu país) e brinquedos de blocos. Assim como Aloísio Magalhães, travou diálogo entre design e arte que permeou toda sua carreira, notadamente ao referenciar o livro For The Voice, do poeta Mayakovsky concebido pelo artista El Lissitzki como ponto de partida para soluções técnicas dos manuais da Bell em 1960.

Designer formado dentro da ideologia do modernismo (com a indústria como seu motor principal) chegou a colocar chaminés como parte do seu premiado brinquedo de montagem de blocos para crianças. Dele se dizia não ter um inglês gramaticalmente correto e nunca ter perdido o forte sotaque, mas talvez justamente por isso, procurava a síntese na comunicação e o apelo visual na relação Imagem-Tipo-Diagrama.

Alguns dos seus livros são clássicos, como Visual Design in Action, e edições originais de seus manuais para Bell Systems são vendidos em leilões a preços exorbitantes. E foi para essa empresa de telecomunicações que, no final da década de 1950, como parte do sistema de comunicação visual, Sutnar cria uma de suas mais usadas e menos reconhecidas aplicações da tipografia como veículo de organização da informação: os parênteses para definir o código de área nos números telefônicos.
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Ensaios

Histórias, Redes Sociais e Memória.

“A capacidade de lembrar o que já se viveu ou aprendeu e relacionar isso com  a situação presente é o mais importante mecanismo de constituição e preservação de identidade de cada um”. 

Rafael Cardoso, em Design para um mundo complexo, 2012 

Das várias metáforas inadequadas que usamos ao falar sobre computadores, a que mais incomoda o autor dessas linhas é o uso do termo “memória”.

Podemos dizer que o que chamamos de memória nos computadores, é um dispositivo capaz de armazenar e recuperar dados, com precisão matemática, em código binário. De um modo bastante diverso, entre nós humanos, a memória é um processo muito mais complexo de reconstrução de uma experiência vivida no passado “pelo confronto com o presente e em comparação com outras experiências paralelas”1. Numa primeira leitura, se comparamos a memória humana com a dos computadores, a nossa pode ser considerada “falha”, por não funcionar “acessando” uma lembrança com perfeita exatidão, mas sim recriando, reconstruindo lembranças do passado.

E é nessa construção que se encontra a beleza da memória humana: entre tantas outras características, a memória pode ser coletiva e não apenas pessoal; uma lembrança pode ser composta de mais de um fato do nosso passado, que remixamos como uma lembrança única; ou pode, inclusive, ser a lembrança de algo que não aconteceu, mas está tão bem construída para nós, que podemos jurar que passamos por tal experiência.

Dentro desse nível de complexidade, o papel dos artefatos que nos cercam é fundamental para essa construção.   Cartas, agendas, souvenirs de viagem, livros, discos, coleções das mais variadas e fotos são alguns desses artefatos. Relatos escritos e fotografias talvez sejam os mais importantes elementos em nossa cultura que servem como pontos de partida para construção da memória e,  no contexto atual de uso de internet e redes sociais, tem sido produzidos e compartilhados em um volume nunca visto anteriormente.

Correndo todo o risco de refletir no calor da hora, sem um adequado distanciamento histórico, gostaria de tratar, no presente texto, de uma grande oportunidade que esse momento traz para os pesquisadores e uma ameaça que paira sobre todas nossas futuras lembranças.

A foto anônima do nosso dia-a-dia Começando pela oportunidade, que se apresenta mais óbvia: na quantidade de imagens públicas, inédita até hoje no seu volume e na sua facilidade de acesso (apenas o Facebook, em 2008 passou a marca de 10 bilhões de imagens), encontramos assim, para o estudo das imagens técnicas, um amplo material, em especial da chamada produção fotográfica anônima, “com um mínimo de pose deliberada da parte do fotógrafo, no que se refere ao ponto de onde se tira, ao enquadramento, e à apreensão da imagem”2, onde  a autoria da foto fica em segundo plano de importância em relação ao tema (festas, encontros, eventos) ou funções (demonstrar afeto, comunicar com parentes/amigos distantes, viralizar memes). Se por um lado essa publicação ampla expõe como nunca a vida privada das pessoas, por outro democratiza o acesso ao material visual potencialmente útil para pesquisa,  para entendermos o impacto dessa mudança vejamos o exemplo dado por Miriam Moreira Leite, no livro “Retratos de Família”: na pesquisa das fotos públicas e de coleções particulares do Carnaval em São Paulo do início do século XX, a pesquisadora observa que as fotos se tornavam públicas apenas quando as famílias “legitimavam a sua condição dominante ao serem divulgadas nas revistas”.

Hoje essa relação entre imagem pública e poder é bem diferente. Com a combinação do barateamento do acesso a dispositivos de produção de imagem (cada vez mais uma atribuição dos celulares) e a farta publicação nas redes sociais, a representação do dia-a-dia não só tem como característica estar pública mas também vem, cada vez mais, com autoria do próprio objeto representado (vide as autofotografias com câmeras de celular).

Essa é a conclusão para o leitor da nossa primeira observação: a oportunidade de sair do valor da fotografia como uma ampliação do olhar do pesquisador (como era considerado por Franz Boas) para uma ferramenta de pesquisa ativa sobre como “cada comunidade fotografa e se deixa fotografar, de onde se pode obter um inventário de situações e valores de cada grupo”3

A ameaça volátil

Observe as fotos abaixo:

O menino com roupas quadriculadas sou eu há mais de 30 anos atrás, essa foto resistiu a várias mudanças, pragas controladas de cupins, humidade e, apesar das marcas no papel e uma ou outra necessidade de reforma, mantém suas características primitivas com a passagem do tempo.

Essa outra foto foi encontrada por mim e minha esposa no lixo de um prédio, nos chama a atenção a semelhança entre esse artefato com o anterior, provavelmente com o barateamento da cópia fotográfica em grande formato, os pôsteres com fotos de entes queridos era uma mania das famílias nos anos 1970.

Quanto à pessoa fotografada, não sabemos de quem se trata, nem a razão de ter sido jogada fora,  podemos pensar em varias causas,  do fim de um relacionamento, que marca a queda de relevância da foto para os proprietários, até a morte da família, onde aconteceria o que é bem comum: as fotos (os próprios artefatos) sobreviverem às pessoas retratados.

Agora vamos para um outro exemplo:

Essa pagina era de um site chamado Manguetronic, um programa de radio na internet criado no Recife em 1996. Em 1997 ele migrou e se tornou parte do conteúdo do UOL, essa pagina só foi recuperada através do serviço Internet Archive4. Houve uma primeira geração de sites de cultura no Recife, entre 1994 e 1996, dos quais tenho a felicidade de ter participado, que estão completamente perdidos. Nessa época acreditávamos que o que estava na rede não se perderia. Ironicamente os vestígios históricos que sobraram estão em panfletos de festas e catálogos impressos de exposições. E o tempo não é o único fator de impermanência, em 1999 um dos sites do qual participei, chamado O Carapuceiro, teve 12 edições publicadas em HTML (linguagem estática de construção de websites), recuperados de um velho backup encontrado ao acaso, tem praticamente o mesmo projeto gráfico original. A partir de 2000 ele foi publicado com um sistema chamado Notitia, um sistema de gestão de conteúdo, que foi descontinuado. Como o Internet Archive não conseguia interpretar e representar as páginas do seu servidor, todo conteúdo posterior foi perdido.

E o que nos reserva os próximos anos? A noticia de uma redução no quadro de desenvolvimento da rede social Orkut, primeira grande rede social em número de usuários brasileiros, leva ao entendimento de um futuro fim para o sistema. Como softwares tem um comportamento orgânico e precisam ser mantidos, não adianta o próprio Google dizer que não tem a intenção de encerrar a rede social. Dentro da lógica de mercado, o Orkut não apresentou o desempenho mundial desejado pelo Google. Logo, nada mais lógico que em algum momento, encerrá-lo.

Isso nos faz pensar na urgência da discussão sobre como a Internet, popularizada no surgimento da web,  com características democratizantes (neutralidade da rede, produção independente de conteúdos, facilidade de comunicação), inicialmente amplificadas pelas ferramentas de redes sociais (descolamento de qualquer conhecimento de programação para publicação de conteúdo, redes temáticas dedicadas) encontra-se hoje no controle de poucas empresas que não demonstram ter o entendimento (e interesse) no valor social da produção de texto e de imagem e da sua responsabilidade por esse corpus tão rico para pesquisa e preservação da memória.

(1) Rafael Cardoso, Design para um mundo complexo, Cosac Naif, 2012

(2) Miriam Moreira Leite, Retratos de Família, Edusp, 2001

(3) Arlindo machado citado por Miriam Moreira Leite, Retratos de Família, Edusp, 2001

(4) www.archive.org

Texto originalmente publicado no evento Universidade, EAD e Software Livre da FALE/UFMG.

 

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O incrível mundo de Tadanori Yokoo

Artista gráfico nascido em 1936 em Nishiwaki, no Japão, começou a carreira pintando cenografias para o teatro underground em Tokyo. Influenciado pelos designers do Push Pin Studio, assim como vários designers dos anos 60 abraçou a psicodelia. Depois de uma viagem para India, buscou referências no misticismo (nessa busca partilhou a amizade e as experiências com John Lennon e Carlos Santana).

Pela abordagem pop de sua obra (não é raro personagens de mangá se cruzarem com tradicionais xilogravuras e fotocópias de personalidades ocidentais) foi considerado o Andy Warhol japonês, mas quando perguntado sobre suas influências, o próprio designer cita Milton Glases, Seymor Chwast, o cineasta Akira Kurosawa e o escritor Yukio Mishima (de quem era amigo próximo).

Não é uma imprecisão dizer que, pela sua capacidade de produzir tanto gravuras de fine art quanto projetos de mercado (inclusive publicidade), Yokoo ajudou a criar a identidade gráfica que associamos hoje com o Japão.

http://www.tadanoriyokoo.com/

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Rogério “Caos” Duarte

A música pop dos anos 60 foi o grande reduto, nos EUA, da linguagem gráfica psicodélica comercial, capas como Cheap Thrills, de Janes Joplin (ilustrada por Crumb) e os cartazes de Victor Moscoso para shows embebidos em ácido estão aí como prova. No Brasil, se existe uma imagem que é a sintese da psicodelia tropical, ela não está nas capas d’Os Mutantes (que nos melhores momentos excedem a linguagem dos anos 60) ou nas capas das bandas de garagem dos anos 60 (os fãs dos The Pop’s irão discordar), mas sim em um cartaz. O filme: Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, o designer: Rogério Duarte.

Tudo no cartaz leva ao calor abrasador do sertão nordestino. Do vermelho que ocupa quase toda superfície, sendo cortado por uma faixa superior de texto (em tipologia sem serifa, seguindo um padrão de composição moderna, que pretende quase passar desapercebida), até a imagem dos raios de sol, em amarelo e magenta (impossível não pensar no sol de dois tiros de João Cabral de Melo Neto), tudo emoldura o foco brutal do cartaz, o cangaceiro que segura o punhal com uma força quase religiosa.

Foi um dos criadores da estética tropicalista, sofreu perseguição política durante a ditadura, chegando a ser preso junto com o irmão. Além dos cartazes para Glauber Rocha (também faria Terra em Transe) sua produção abarca os grandes nomes da MPB, como Caetano Veloso (numa experiência de revival Art Nouveau), Gilberto Gil e João Donato.

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O ecletismo de Seymour Chwast

Nascido no Bronx, em 1931, o ilustrador, designer gráfico e tipógrafo Seymour Chwast foi um dos fundadores de um dos estúdios de design mais influentes dos EUA: o Push Pin Studios, em 1954.

Suas ilustrações de cores fortes e chapadas faziam um saudável contraponto com os desenhos detalhados de Milton Glaser. Como forma de tornar o trabalho conhecido eles editaram a revista The Push Pin Graphic. Uma publicação bimensal do estúdio.

Em uma época onde o padrão editorial era fortemente influenciado pelo Estilo Internacional, sob a luz do funcionalismo europeu, Chwast, baseado num profundo conhecimento histórico das artes gráficas só comparável com seu ecletismo e espírito inovador, despejava no público estadunidense seus desenhos coloridos, de curvas exuberantes e senso de humor mordaz.

Um dos seus melhores momentos foi a edição especial 54 da Push Pin Graphic: The South.

Estamos em 1969, um ano antes Martin Luther King era assassinado, um acontecimento terrível que culmina uma década de violência racial, quando foi escolhido para fazer a última edição dos anos 1960 para a revista, Chwast comenta sobre o que foi a década: “Lembro-me de segregação… Houve uma sucessão de assassinatos que todos nós conhecíamos. Especialmente os três ativistas de direitos civis, isso afetou a todos nós. Foi notícia por muito tempo porque não conseguiam encontrar seus corpos. ”

“The South” era uma coletânea de estereótipos, frequentemente racistas, sobre o Sul dos Estados Unidos, ladeados pelas imagens dos líderes e ativistas assassinados. Como toque de sofisticação editorial uma faca de corte foi usada para fazer um buraco (referenciando o trajeto da bala) que começa no “o” do South na capa e perfura as fotos dos ativistas mortos.

Pela primeira vez nos Estados Unidos um escritório de design faz uma declaração política de uma forma tão clara.

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John Heartfield: designer, ilustrador, tipógrafo, nascido Helmut Herzfelde.

Nascido como Helmut Herzfelde, em Berlin, na última década do século XIX, filho de um escritor socialista e uma ativista trabalhadora em fábrica de tecelagem, teve sua formação na Suíca, para onde os pais fugiram, por perseguição política. Em protesto contra o ultra nacionalismo alemão, que levaria ao terror nazista, mudaria seu nome para John Heartfield, em 1916.
Após estudar na Escola de Artes Aplicadas de Munique, vai morar em Berlin onde estuda com Ernst Neuman na Escola de Artes e Ofícios. Entra para o mundo da produção gráfica com as contribuições para Die Neue Jugend. Lá começa a desenvolver seu estilo de Ilustração através de fotomontagem.
Ficou mais conhecido por esses trabalhos em especial nas ilustrações anti-nazistass, que encontraram seu melhor momento na revista AIZ (Arbeiter Illustierte Zeitung), e por ser um dos fundadores do movimento Dada na alemanha, em 1918.
Mas não menos importante é sua contribuição para a vanguarda do design gráfico na Europa nas revistas Neue Jugend e Malik Verlag, influenciando, através de seu tratamento tipográfico e layout, dos construtivistas russos ao De Stijl holandês.
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Ensaios

Cavaletes

Uma pequena coleção de imagens de como podem ser construídos de forma diferente objetos que partem do mesmo projeto de domínio público.

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Ensaios

O google está destruindo nossa memória?

No poema Doomsday de Jorge Luiz Borges (que inicia com imagens do fim do mundo em várias civilizações, tempos históricos e contextos) há uma constatação que, para muito além das paranóias milenaristas, crenças cristãs e choques ideológicos, o fim do mundo como conhecemos, acontece todo tempo, “em cada pulsação de teu sangue”.

De uma forma bem-humorada, um cartum com o diálogo entre dois Maias, sobre o seu tão falado calendário, tem circulado na internet nos últimos dias, com a síntese da preocupação tornada piada com esse evento que vira e mexe toma novamente o centro de nossas atenções e vira título de vários filmes de cinema catástrofe. Esse ano movido pelas interpretações das previsões Maias.
E parece que nada é melhor para atrair pensamentos sobre o fim dos tempos do que mudanças tecnológicas. Dessa vez quem canta a pedra são pesquisadores das universidades estadunidenses de Columbia, Wisconsin-Madison e Harvard. No paper “Efeitos do Google na Memória: Consequências Cognitivas de ter Informação na Ponta dos Dedos” (no link em inglês) eles nos escrevem sobre como “A Internet tornou-se uma forma primária de memória externa ou transacional, onde a informação é armazenada coletivamente fora de nós mesmos”, as observações desse paper baseadas em experimentos científicos levam fácil e rapidamente a chamadas sensacionalistas do tipo “O Google está destruindo nossa memória”.

A história se repete (se nesse caso como farsa ou tragédia não nos cabe questionar), é no mínimo curioso notar que o apelo da chamada nos remete diretamente à uma outra invenção que foi recebida da mesma forma, como um instrumento que levaria ao fim da capacidade de pensar do ser humano: a escrita. Em 380A.C. Platão, nos seus Diálogos, colocou as seguintes palavras na boca Faraó: “Aqueles que a adquirem [o hábito da escrita] vão parar de exercitar a memória e se tornarão esquecidos; confiarão na escrita para trazer coisas à sua lembrança por sinais externos, em vez de fazê-lo por meio de seus recursos internos. O que você descobriu é a receita para a recordação, não para a memória”. Muitos gregos acreditavam que a escrita limitaria as humanos. Como toda tecnologia de comunicação ela mudou o ser humano para caminhos que nos levaram à cultura humana que conhecemos hoje. Com o livro foi facilitado o esquecimento, uma etapa fundamental para o aprendizado, “não lembrar é parte do objetivo da memória!” diz o professor Luciano Meira.
“Na expansão podemos esquecer” e assim, felizmente, fugir do desfecho de outro conto do mesmo Borges (Funes, o memorioso) onde o escritor argentino nos dá um relato dos infortúnios de uma memória ficcionalmente eidética.